Ébano
Sempre que descia o morro passava lá em casa... já tinha 7 anos e ainda não estava na escola... Mal tenho tempo pra ver essas coisas - dizia sua mãe. Até que me pediu para procurar uma escola do município para Ébano. Fui, cuidei, levei o moleque para seu primeiro dia de aula..merenda, mochilinha nas costas e muita disposição para...a professora faltou...ele ficou bravo comigo...Por que levantei tão cedo à toa? Não pude levá-lo de volta à sua casa...deixei-o na esquina e dali fiquei olhando-o até que sumisse na quebrada...
Ébano era lindo...os dentes enormes...nunca vi tão brancos, um sorriso indescritível, a gargalhada mais gostosa que já ouvi..Sua mãe era doméstica e a sua patroa só a liberava aos domingos. Bem que dona Rosa tentara levar Ébano com ela, mas a patroa não deixava...assim Ébano passava a maior parte do tempo sozinho em casa ou na rua...
Sempre que eu chegava cedo, chamava-o para tomar café comigo...Um dia me perguntou como ele podia ser da cor do café e eu tão diferente...então misturei o café ao leite e perguntei se naquele momento enquanto bebíamos o nosso café com leite, a resposta seria muito importante...ele me olhou com seus grandes olhos de jabuticaba e fez com a cabeça que não, deixando o bigodinho de café com leite à mostra...
Continuei levando Ébano para a escola com a mesma freqüência em que sua professora dedicadamente faltava...Resolvi mudá-lo de escola...coloquei-o em uma escola estadual...foi um pouco pior... apesar de sua professora faltar menos...o clima na escola não parecia dos melhores...por duas vezes, em menos de um mês, Ébano chegou em casa machucado...em uma das vezes seu braço foi cortado à gilete...mesmo assim, dona Rosa achou melhor não tirá-lo da escola porque lá ele se alimentava e era menos uma preocupação para ela...
Na manhã seguinte levei Ébano à escola e falei com a diretora sobre o que estava acontecendo, ela me disse que Ébano era uma criança muito agitada e que era impossível dar conta de todo mundo...com a mesma proficiência pedagógica disse-lhe que se ela não tomasse uma providência eu a denunciaria ao Ministério Público...ela entendeu...
Nos anos seguintes, Ébano continuou estudando na mesma escola, passando lá em casa cedo para tomarmos café com leite juntos, e sempe que podia eu o levava à escola...a essa altura o cabelo de Ébano estava grande...fazia tranças, tirava onda...Quando fez quinze anos, sua mãe deu-lhe um disckman de presente e eu um berimbau...ele curtiu o berimbau durante dois anos, até que me disse que o som que ele curtia mesmo era o de guitarra...
O salário de sua mãe mal dava para pagar o aluguel da meia-água onde moravam..então no dia seguinte resolvi sair para fazer-lhe uma surpresa...Encontrei Ébano na esquina...falou que tinha arrumado um emprego...Pedi que viesse comigo e perguntei-lhe sobre aquela história...ele deu uma gargalhada que sempre me desconcertava...disse que era limpeza, que tava trabalhando na oficina do pai do Jonas um amigo da escola...
Achei melhor conferir...Só vi Ébano chorar duas vezes...aquela foi a primeira...o seu olhar indignado me cobrava a confiança cultivada em todas aquelas manhãs de café com leite de nossas vidas...ao contrário de Ébano, sempre me emocionei com muita facilidade...mas não me lembro de ter lamentado tanto uma burrice...
Por muitos dias fiquei sem tomar café com leite...às vezes ouvia sua gargalhada ao longe e mordia os lábios para não chorar...até que num domingo dona Rosa resolveu entrar em ação...parecia nervosa...me pediu do muro que fosse até a sua casa... não pensei duas vezes...saí correndo...chegando lá a mesa do café estava posta...Ébano sentado com dois copos de café com leite sobre a mesa...Nunca passei um domingo tão feliz...tomamos banho de balde, jogamos capoeira, tocamos berimbau e dormimos abraçados como dois irmãos na cama cheirosa de dona Rosa...
Três meses depois Ébano comprou sua guitarra...preta e branca...disse que eu sabia o porquê...e lá de casa eu já ouvia os riffs que ele tirava dela... Num sábado me apareceu lá em casa com Odete - era assim que a chamava - naquele dia enlouquecemos a vizinhança com muitas ladainhas e rock'n roll...até que no fim da tarde me disse que tava precisando conversar...estava apaixonado...viva! festa! quem é ela? era da escola, maneira, parceira, linda...Saiu lindo, perfumado, radiante, feliz...pediu que avisasse a dona Rosa de que chegaria mais tarde...
Não sei a que horas acordei com os gritos de dona Rosa...Um carro, um carro...Saí correndo... havia uma confusão e no meio dela o nome de Ébano...não sabia o que fazer mas sei que nunca vou me esquecer do rosto transfigurado de dona Rosa...Ébano estava no chão com toda sua grandeza e beleza...falei que iria tirá-lo dali...ele apertou a minha mão mais forte e me pediu um abraço...abracei o corpo de Ébano contra o meu mas sua respiração foi ficando mais ofegante...então olhei-o novamente e seus dentes brancos estavam vermelhos...Não sei como se deve proceder nos últimos segundos de vida de uma pessoa...mas eu não podia ficar sem saber quem tinha feito aquilo...Um tiroteio...disse...Corri pra sair da linha de tiro...mas você sabe...eu sou Ébano...Tentou rir...e esta foi a segunda vez que vi Ébano chorar...
Ébano morreu aos 17 anos e meio, na terceira série do ensino médio, apaixonado, jogando capoeira, tocando guitarra e berimbau e bebendo café com leite...
Por Mônica Z.
Para embalar


3 Comments:
Ébano,madeira escura,pesada e resistente, escolheu bem o nome do protagonista da sua narrativa, uma personagem alucinante. Vejo que optou por um estilo, o uso constante de remenicências. Abraços. Fábio W. Sousa - Goiás - http://filoliteratura.blogspot.com/
1 ano de ÉBANO...
Valha-me Deus,
Senhor São Bento
Oi buraco velho
Tem cobra dentro...Depois é só se benzer...
Mônica Z
Um ano...
Pude perceber.. "ver" o olho bom de ÉBANO..
Ébano..Rosa..Sonhos...vivos entre nós.
Muito bom...Muito bem...
Bjs
marilda
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