Verbum
Às vezes parece que no morro acontece tudo por acaso...basta amanhecer...mas não é assim...tudo no morro tá muito bem organizado...e isso de certa forma sempre me assustou...sempre achei que sabiam um pouco mais do que meu nome...Bom dia, professora!?Nunca gostei de responder a pessoas que fazem de seu cumprimento uma provocação...olhei friamente para...nem seu nome eu sabia...Você é muito marrenta!
No morro muitas pessoas agem como verdadeiras entidades...são as donas da situação... não importa quem você seja, sempre terá que bater cabeça para elas, pedir a bênção...são as donas da entrada e da saída, da vida e da morte...Tá difícil hein professora...todo dia passando por aqui sem pedir a bença...BÊNÇÃO...emendei...
Silêncio...
Aprendi desde cedo que quando o mistério é grande a gente não desafia...
Só me dei conta quando ele já estava na porta da cozinha. Parecia mais uma central telefônica...nunca vi tantas guias em um só pescoço...CONTAS...disparou...
Silêncio...
Tinha fechado minha casa há alguns dias e alugado um barraco no alto do morro...Às vezes para confrontarmos certos vampiros precisamos de entrar em seu castelo... e sob o domínio deles ir abrindo as cortinas bem devagar até que por completo desapareçam...Disse-lhe que não tinha qualquer interesse em seus negócios...Apesar da entrada indelicada não parecia disposto a querelas...
Joás - era o seu nome - não sabia ler tampouco escrever e achava que por conta disso estava sendo passado para trás em seus empreendimentos. Disse-me que pagava bem...Achei que tava entrando numa grande roubada...Pedi que fosse embora...que não era alfabetizadora, que não tava a fim de falar nem ver ninguém... Por um instante ele me olhou como alguém que lhe tivesse tirando o direito à vida...
Um mês depois - sob o mais absoluto sigilo a pedido dele - Joás já sabia escrever razoavelmente o seu nome e algumas frases completas. A leitura foi mais sacrificante...no entanto, para alguém com 21 anos até que não foi tão mal...
Muitas vezes fazia relações equivocadas entre alguns termos, mas sua determinação em aprender era de certa forma o combustível de que todo professor precisa para dar continuidade a seu trabalho...Consegui alguns livros e começou a ler pequenas histórias...soltava gargalhadas sempre que conseguia ler todo um período sem gaguejar...Cinco meses depois resolvi passar-lhe algumas noções de morfologia e sintaxe...
Ficava fascinado quando conseguia conjugar todo um tempo verbal e dizia que o modo indicativo era o maior x9...Se encantava pelos termos essenciais da oração, e dizia que o sujeito desinencial era um sujeito esperto...sempre batia o ponto mas nunca botava a cara...
Um dia apareceu com uma pulseira em ouro onde se lia...VERBUM. Falou que era assim que seria chamado daquele dia em diante...Verbum...palavra...Agora professora eu sou a voz do morro...Perguntei-lhe o porquê do latim...Vi num livro seu...achei bonito...palavra - completou.
No último dia de aula improvisei um certificado de conclusão do Curso Palavra e dei-lhe depois de um longo abraço que nos irmanou em uma única história...Falou que era de Recife...que seus pais estavam na Paraíba e que tinha vindo para o Rio para tentar a sorte...
Não deu...
Tínhamos gostos musicais parecidos...reggae, blues...e de repente não sei de onde ele surgiu com aquela frase rock'n' roll lullaby...É uma música...minha mãe cantava pra mim quando eu era criança...
No final da tarde Verbum colocou sobre a mesa algumas pequenas pilhas em notas de 50 reais...disse-me que era muito pouco diante de tudo que tinha aprendido...Disse-lhe que não era aquele o pagamento que eu queria...ele não entendeu...
Queria uma festa...uma festa com todos os convidados de cara limpa e literalmente desarmados...inclusive ele...
.
Eu vi a esfinge nascer em seu olhar...
No dia seguinte uma melodia enchia todo o morro...lá estava ela...rock'n' roll lullaby...E aí professora!!! já viu a galera?...todo mundo na linha!!! Confesso que não esperava...tava todo mundo lá...tinha alugado caixas de som e improvisado um salão de festas no campo que ficava no alto do morro...ele tinha até garçons...falou que eu poderia checar...Tudo limpeza...
Acredito que o grito é muitas vezes o eco do nosso próprio silêncio...não sabemos a que horas ele vai sair...mas ele está ali...pronto para ser detonado...aquela era a minha epifania...tava na hora de ir embora...A festa acabou na alta madrugada...o morro era a antítese de si mesmo e emprestava a toda aquela comunidade a sua própria metonímia...tava limpo...calmo...desarmado...
No dia seguinte entreguei o barraco...Verbum estava na esquina...Gostou da festa? Pela primeira vez pronunciou meu nome como se pela primeira vez me reconhecesse como um termo essencial...Perguntei-lhe como tinha conseguido...Não sei...mas foi a primeira vez que me senti sujeito da minha própria história...Sujeito simples...Verbum...intransitivo...
Essa história termina aqui...cheia de hiatos, intervalos e interditos...
Por Mônica Z.
Para embalar


2 Comments:
Aproveito para lhe dizer que é parte integral do meu blog, espero que não se zangue, se zangar me diga que eu tiro, por favor não processe! Te falei que adicionei você no meu msn, mas parece que não deu certo. Beijos misturados com um forte abraço caloroso.
Preciso confessar que caíram lágrimas enquanto lia, pois é de uma simplicidade tão cheia de belera o que você escreveu. Obrigada por compartilhar esse texto com o mundo.
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