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sábado, 23 de dezembro de 2006

Beatriz

Dizia que falando era melhor que calada...ficava horas desenhando nos cômodos incômodos de sua mente cenas possivelmente de uma obra aberta ou inacabada...o cenário não era dos melhores...um quintal com bastante capim ao redor, um cachorro magro e um pé de carambola fora da estação...Quem passasse na rua e olhasse para ela, diria que estava conversando com seus botões, como era costume dizer...
Beatriz era mãe de três filhos...de nenhum tinha conta...Aos 17 nascera a menina, aos 18 já tinha um casal; a outra menina só viria aos 25...dizia que não seria para os filhos o que sua mãe fora para ela...mas parece que o fascínio que a vida exercera sobre ela fora mais forte que o seu desejo em reparar erros do passado...diziam uns...
Mastigava horas sentada na única entrada da casa...criava cenários em seu mundo de sonhos...situações embaraçosas saltavam-lhe à imaginação...suas personagens estavam sempre sob os mais diversos tipos de perigos...os mais diversos conflitos...Era nesse cenário que ela surgia como a grã-protagonista e solucionava todos os problemas como num passe de mágica...em seguida, dotada de extrema modéstia, saía de cena sem fazer qualquer alarde...como cabe aos grandes heróis...
O único problema para Beatriz era que suas personagens não tinham rostos...por mais que insistisse em buscá-los...dizia que o problema era a fumaça...Nunca consigo vê eles direito...também devem ser surdos...toda vez que tento falar...nunca me olham...caminham pra lá e pra cá...deve ser a fumaça...
O tempo havia castigado demais Beatriz...de sua história o que se sabia - diziam outros - é que sempre quisera ser mãe...que tivera seus três filhos muito cedo, mas que sem condições de criá-los acabaram sendo entregues a outras famílias...
Beatriz não gostava de falar sobre isso...Da minha vida cuido eu...só eu sei...Não demorava e as lágrimas desenhavam em seu rosto cansado uma Beatriz que suas personagens jamais veriam... Uma vez propûs-lhe dar voz as suas personagens...Disse-lhe que se ela quisesse eu poderia tentar responder às perguntas que ela fizesse a elas...Séria e desconfiada ao mesmo tempo, perguntou como eu saberia as respostas...Falei que iria tentar saber...Tá bom...vamos ver...vamos ver...Respondeu de mansinho como quem tragasse os próprios pensamentos...
No dia seguinte cheguei cedo à sua casa...o cheiro do café fresco enchia todo o seu pequeno quarto... muito tempo que não faço café assim...fiz muito café...comprei leite e pão pra todo mundo...E como você sabe que eles gostam de café e de leite, Beatriz? Porque acho que eles são parecidos comigo...respondeu num misto de perspicácia e ironia...
Beatriz era sábia...alimentava seu tempo com uma memória que mesmo inventada, preenchia suas inquietudes sensoriais...e era nesse universo que construía suas histórias nas quais sempre surgia como uma espécie de mulher- maravilha. Era isso...Beatriz só conseguia livrar suas personagens de todos os perigos que lhes sobrevinham porque as conhecia como a palma de sua mão...Beatriz sorriu como se eu tivesse descoberto seu grande segredo...
Beatriz...Beatriz...
Eles chegaram...É Natal...estão fazendo compras...e eu tô ali com eles também...disse ela com a voz bem cansada...Imediatamente perguntei a Beatriz o que ela gostaria de saber...de perguntar. Ela pensou...pensou muito...como se pensar fosse a última coisa que faria em sua vida...Quero saber o que eles querem ganhar de Natal...Beatriz já estava muito fragilizada pelo peso de seus dias...então disse-lhe, abraçando-a lentamente...Um abraço...tudo o que querem é um longo abraço...
O que estão dizendo agora... Estão agradecendo pelo leite...mas preferem café a leite...assim como você...Ela sorriu...E o que mais eles estão dizendo? Estão dizendo que te amam...que te amam muito, Beatriz...Nunca passei um Natal tão feliz...Recostou sua cabeça em neve sobre o meu peito...fechou os olhos lentamente...ainda alimentados pela sua primeira e última ceia de Natal...
Por Mônica Z.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

gostei da sua narrativa, Beatriz, o uso das reticências deu um ritmo especial a ela, percebo que a autora tem um dom para narrativas que envolvem problemas relacionados com a natureza humana e sua psiquê. Boa sorte como escritora. È um dom que gostaria de sido agraciado.

domingo, dezembro 31, 2006  
Blogger Unknown said...

Ah..Beatriz, mulher maravilha !!Todos temos momentos de Beatriz..vamos , voltamos, construimos, ignoramos..inventamos...vivemos.
Bela construção, MZ.
Obrigada,
Marilda

domingo, novembro 11, 2007  

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