João
Faltava pouco tempo para descobrir-se de si mesmo... como se descobrir-se fosse arrancar a própria pele...escalpelar os próprios sentidos...entender-se era para ele um grande mistério...descobrir-se; desafio. Passava horas sentado na beira da cama logo que percebia-se acordado...talvez esta fosse uma de suas mais racionais descobertas...descobrir-se acordado depois do sono...Isso é palhaçada - dizia sua mãe - o que esse menino tem é fogo...falta do que fazer dá nisso...pensa demais...se trabalhasse não ficaria aí igual a um maluco olhando pra parede...
Ela jamais entenderia...ele não estava olhando para parede...olhava para além dela...e para além dela estava sua vida tão sistematicamente programada para ser e estar...Não contemplava a vida com os olhos materiais da mãe nem do determinismo dos irmãos e dos vizinhos...Esse garoto pensa que é melhor que a gente...fica aí dando uma de de nerd, de intelectual...isso é falta...Descobrir quem falava isso não importava para João...era uníssono...tudo era uma única voz naquele cortiço de merda...todos tinham uma só voz...e isso verdadeiramente não importava...
O irmão mais novo pulava da cama cedo e isso garantia-lhe algumas horas a mais olhando para dentro de si mesmo...era o único mundo onde ainda conseguia respirar sem ser interpelado por alguém...O pai morrera num assalto, a mãe disputava com as irmãs o título de vagabunda do morro, o irmão era conhecido na comunidade como Pegue-pague...por qualquer trocado prestava serviços à comunidade...homem, mulher... não importava...era só pagar...
Era para essa parede que João olhava...alvernaria...argamassa...concreto armado...muro salpicado de cimento arranhando por dentro as paredes de sua dignidade...No silêncio alimentava monstros e vampiros todos os dias de sua enorme vida...Terminara o ensino médio como o melhor aluno da classe em conteúdo e assiduidade...mas isso não lhe garantira muita coisa...bateu de frente no vestibular que prestara para arquitetura...queria endireitar o mundo, a vida, tudo...
Há cinco meses que saía quase todos os dias a fim de tentar conseguir um emprego que sua formação geral em escola estadual não lhe dera...estava cansado...cansado demais... Gostava de conversar com o pai...adorava vê-lo tocar seu violão: "Bate outra vez/com esperanças o meu coração/pois já vai terminando o verão, enfim/volto ao jardim/com a certeza que devo chorar/pois bem sei que não queres voltar para mim/queixo-me às rosas/mas que bobagem/as rosas não falam..." Sentia muito a presente ausência do pai...Sempre soube que ele não morrera em assalto algum...e essa era uma de suas descobertas mais dolorosas...sabia que o pai fora metralhado na casa do Tico depois de recusar-se a fazer sua contabilidade...Ao contrário dele seu pai tinha feito o curso técnico...mas isso também não lhe trouxera muita sorte...
Uma vez leu em um livro da biblioteca que..."Quanto mais esquecido de si mesmo está quem escuta, tanto mais fundo se grava nele a coisa escutada." A partir daí resolveu que iria dedicar-se a descoberta de si mesmo...deveria esquecer-se para escutar-se...Enquanto estudava procurava fazer isso na biblioteca...chegava mais cedo e ficava horas folheando aleatoriamente livros e mais livros...quando sua mente parecia sufocar, largava tudo e procurava sorver o que tinha sobrado...era isso o que importava...Quando concluiu o ensino médio já não tinha tanta disposição para folhear tantos livros...O que sobrara era ele...só ele...era preciso folhear-se...ler-se...
As festas de final de ano tinham um sabor de vazio...sua mãe sempre lhe dava o mesmo presente...uma camisa azul...uma ano após o outro...uma camisa azul...Naquele dia acordara diferente...quase um ano após a morte de seu pai precisava ouvir-se por dentro das paredes de concreto carmomidas pelo tempo...do chão lodoso e escorregadio do banheiro...do mármore frio e fétido da pia da cozinha...mas tudo o que ouvia eram os gritos de sua mãe e os gemidos de suas irmãs no bordel que se tornara a sala naquela noite...Ficou ali durante alguns segundos observando aquilo que seria um dos sete pecados capitais...uma folha...após...a outra...
Quando se está no cio, ninguém vê quem está ao lado...ninguém percebe nada... Era assim a sua família...sempre no cio de si mesma...Tomás de Aquino ou Moisés...as tábuas da lei...Não matarás...com sorte tudo acabaria bem...fora assim com seu pai...E no silêncio ensurdecedor da noite...O fuzilamento de Goya...respirou aliviado...Tudo em paz...
Por Mônica Z.
Para João Freitas.


3 Comments:
João é um filósofo precoce, aliás, como todos os pensadores, antecipados, com sua visão de mundo diferenciada, questionadores; Sou capaz de dizer que você Mônica, é bastante influenciada pelos pensadores, possui um vocabulário muito bom,vejo-a uma Lispectoriana e uma Dostoièviskiana. Ansioso pelo próximo conto carioca já me encontro, a ansiosidade me corroi a bílis.
Não precisa ler-me por devoção, leio-a por estar distraido, navegando, e de repente já estava lendo-a, num estralo, gostei e continuo lendo. Ah, já percebi que são resumos de contos maiores. Abraços.
João...familiar esse nome.
Os desafios são como alavancas ..os resultados são resultados da vida..de nós..do mundo.
Bom vê-la passear pela presente narrativa: arrebata o leitor com amplitude e aspectos pontuais..muito competente.
bjs e obrigada
Marilda
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