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Porque sempre há muita coisa antes... e sempre haverá muita coisa depois...

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segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Antônio

Averso à noite...Antônio era uma espécie de mutante junto aos amigos...Nunca fora de acordar tampouco de dormir tarde...festas, nigths eram até às onze no máximo...meia-noite já era madrugada...Contrário às manobras ditas fáceis que rolavam no morro não era bem visto pela galera que fazia delas sua própria vida...Era um otário...um mané...bundão...devia ser veado... Era a voz que no morro ele ouvia...
Às provocações Antônio respondia com o silêncio...não acreditava no velho ditado de que quem cala consente...dizia que o silêncio não era sinônimo de consentimento mas de estudo, investigação e muitas vezes de sabedoria...Sentia-se um cara atípico na vizinhança...adorava ensinar matemática...Muitas vezes era ele quem safava boa parte da comunidade de ser reprovada...crianças, adolescentes e adultos...nunca cobrou por uma aula nem se gabava disso...Antônio tinha noção de sua desimportância social...Sua figura prosaica era facilmente fagocitada pelo que ali importava...o poder instituído não vinha do intelecto mas da força...ainda que covarde...ainda que injusta...
Uma virada de mesa era tudo o que queria...damas, xadrez...sabia matematicalizar a vida, transformar letras em números...Mas talvez esse fosse um jogo antigo...Em qualquer lugar o reconheceriam por um simples número de identidade...Identidade...para além do samba que curtia com alguns amigos na casa do Biza, Antônio com nada se identificava no lugar onde morava...Se tivesse grana já tinha dado linha há muito tempo dali...Subir ladeira todo dia...acordar com rajadas de metralhadora na cabeça...ter sua casa invadida por neguin querendo cobertura...ser chamado de merda simplesmente por não querer multiplicar o que ele não achava certo...Morriam aos cachos pelas ruelas do morro...10, 13, 18...a idade não importava...Na cartilha do morro a lição era uma só...se ajoelhasse era pra rezar... não tinha segunda chamada...E o merda sou eu...pensava...
Havia no morro alguns grupos musicais...teatro...ongs que ganhavam espaços em jornais, revistas, televisão...Antônio sempre reagiu com bastante inquietação a esses contratos-propostas estabelecidos entre esses grupos e a mídia...Quando se apresentavam percebia que eram tratados como bichinhos exóticos prontos para fazer o bem em um mundo mau e cruel...
Esse maniqueísmo o incomodava e o asfixiava de forma lancinante...Eram vistos como se tivessem saído de uma verdadeira selva de pedra tal os olhares que sobre eles eram lançados...Não era valorização...era espanto à sua força e sobrevivência...
A oportunidade que lhes davam de mostrar seus excêntricos trabalhos era a confirmação simples e abnegada da civilização em se deixar seduzir pelos bichinhos amestrados...Era a propaganda mais fácil e sórdida de dar visibilidade à mídia de patrocinadores potencialmente brancos e civilizados, exercendo abnegadas cidadanias junto aos miseráveis... Era possível que naqueles dias as pessoas fossem dormir com a estranha sensação de que naqueles vales de sombra ainda havia vida suportável... gente que valia à pena...aquelas que lhes garantiriam a manutenção de seus ibopes...
Pensava nos valores mastigados um ano após o outro por seus professores em sala de aula...Bondade, amor ao próximo, respeito...É difícil ser bom no deserto quando tudo o que se tem para beber é a própria saliva...Um professor uma vez lhe disse que identidade era um conceito arbitrário...que toda identificação correspondia a uma exclusão em igual ou maior grau... Talvez isso devesse fazer de Antônio uma pessoa melhor...mais tolerante...Por um tempo até pensou assim...mas era ele sozinho ali naquele painel de vidro à prova de som...Identidade no morro - dizia - era arma na mão...
Teve oportunidade de declinar do alistamento...era arrímo de família...mas queria servir...não sabia se à pátria ou a si mesmo...Estava cansado...precisava de dinheiro...Sua mãe trabalhava como acompanhante de um senhor de idade há quase um ano e só voltava para casa de 15 em 15 dias...No começo disse-lhe que não iria se acostumar a ficar longe dos filhos...Com o tempo só aparecia de 30 em 30 dias...Há seis meses não a via...
Uma vez encontrou-a à noite na esquina de um shopping...Quando o viu sorriu de um riso nervoso...Dele não quis saber...Era como se ele estivesse atrapalhando alguma coisa...Logo um carro parou...Perguntou quanto era...Ela empurrou Antônio e o mandou embora...Cochichou alguma coisa no ouvido do sujeito que a mandou entrar...Foi a última vez que a viu...Nem pôde dizer-lhe que já era soldado do exército...que não era um merda como diziam...que iria seguir carreira...E seguiu...Durou seis meses seu pequeno mas honesto sonho...a dispensa coletiva viria em seguida...sem apelação...
A angústia daqueles dias devorava-lhe os sonhos...O seu sofrimento parecia devorar a sua bondade e sensibilidade...Suas noites foram consumidas pelo desespero de quando nada mais se tem a fazer...nem a perder...Sua mãe e irmã era sua única família... aquela que mostrou aos colegas quando foram a sua casa fazer o trabalho da escola pela primeira vez... Mas elas já não lembravam disso há muito tempo...Da irmã tudo o que sabia era que aos 15 anos atuava como a segunda mulher do morro...Quanto a mãe...
Passou a noite ruminando pensamentos antigos...Sonhos abortados de fantasias...Dispensou novas esperanças...não mais precisava delas...só o desamparo...o abismo lhe interessava...Nada mais do que o hiato dos seus desejos...dos seus dias...da sua vida...do seu tempo...Quem calava não consentia...Quem calava queria gritar...Não era um merda...
Matematicalizar a vida ajudou Antônio a entender muitas coisas..Menos a morte...
Do outro lado da rua em frente ao shopping uma mulher retoca a maquilagem depois de bater de frente com a manchete na primeira página do jornal...Reconhecia no rosto desfigurado do menino da foto as sobras de sua mísera identidade...Não precisara excluir ninguém...a vida se encarregara disso...
Respira fundo tentando conter as lágrimas mais uma vez...Um carro buzina...Retoca o rímel...Uma puta...de luxo...
Por Mônica Z.

1 Comments:

Blogger Fábio W. Sousa said...

Frases de impacto na minha leitura

“Contrário às manobras ditas fáceis que rolavam no morro não era bem visto pela galera que fazia delas sua própria vida...”

“É difícil ser bom no deserto quando tudo o que se tem para beber é a própria saliva...”

“Uma vez encontrou-a à noite na esquina de um shopping... Quando me viu (quando o viu) sorriu de um riso nervoso...” (não sei o que aconteceu, mas acho que o narrador se misturou com a personagem, me corrija se estiver enganado, beijos!)


Antônio tem o mesmo espírito de Sócrates contra os sofistas, “adorava ensinar...sabia muito de matemática ...Muitas vezes era ele quem safava boa parte da comunidade de ser reprovada ...crianças, adolescentes, e adultos... nunca cobrou por uma aula nem se gabava disso...”, sonhos que são atropelados, esplêndido, é algo bom para ser explorado.

Fagocitada – Derivado do substantivo masculino Fagócito – Célula que engloba e digere outras células ou qualquer corpo estranho, neste caso, o próprio Francisco e toda sua visão de mundo”, sendo englobado e digerido pelo sistema, pela sociedade idiota e medíocre.

Já te adoro!
Fábio W. Sousa

segunda-feira, abril 09, 2007  

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