Jurema
Sua beleza era inspiração para as telas de Di Cavalcanti...Sua silhueta se confundia com algumas curvas do morro...os que a viam diziam que fora bem criada e que aquele com certeza não era o seu lugar...A beleza de Jurema...seu sorriso...suas mãos...o andar de Jurema...seu corpo...sua voz...sua educação...Jurema era poesia em verso e prosa...Ah, Jurema "se todos fossem iguais a você/que maravilha viver... "
Quando descia, o morro suspirava...como era bom ver Jurema passar...acompanhar seus passos em slow-mochion...Parecia um minuto de silêncio no Maracanã...Nas quebradas, nos bares...os mais diversos comentários...Para que dentes...deixa Jurema mastigar...para que pernas...deixa Jurema andar...para que mãos...deixa Jurema aplaudir...para que promessas...deixa Jurema rezar...e os malandros se encostando pelos cantos faziam rezas e quebrantos...Jurema era inspiração para o dia inteiro...
Meu Deus, eu quero a Jurema que passa...
Jurema era uma espécie de amuleto dos nossos dias nublados...nunca mais subir o morro foi sinônimo de cansaço...Jurema nos banhava com sua presença sempre tão familiar que custava-nos a acreditar que o que havia antes de Jurema era vida...Ela enebriava os nossos sentidos...podíamos ficar horas em silêncio...catalépticos...simplesmente alimentados pela sua imagem que era nosso culto e cartão-postal...
Nos finais de semana ver Jurema era como clássico no Maracanã...Lá vinha Jurema...e a torcida Olé!!! Jurema driblava um...dois...três...dava um chapeuzinho em outro...e a torcida Olé!!! Quando matava no peito...a multidão se acotovelando ia ao delírio...e a galera Ahahah!!! e Jurema passava...e a galera Uhuhuh!!!
Um dia Jurema desceu o morro e nunca mais voltou...O morro entrou em colapso...quarentena...Todos os dias tornaram-se quartas-feiras de cinza...Durante quarenta dias e quarenta noites expiamos nossas corpos das mais diversas formas pelas vielas imundas do morro...Esperamos, órfãos, pela volta de Jurema todos os dias dos nossos pecados...nossa culpa...nossa tão grande culpa...
De nada sabíamos de Jurema...da sua vida...do seu passado...de onde veio...Quem era Jurema para além dos nossos cios e desejos...para além da nossa vida tão mediocremente programada...
Um dia ela voltou...e a torcida Ahahaha!!!...As pessoas em polvoroza tropeçavam umas nas outras...Seu Manoel vendeu fiado...Pedro Neco ficou na meia barba...Nininha - a manicura - levou no mínimo três bifes para casa...seu José vendeu sardinha por dourado...Mas Jurema não estava sozinha...junto dela...a polícia...
Toda sua beleza parecia aturdida ou atormentada por alguma coisa que não conseguíamos ler tal era o nosso estado de graça...Na verdade acho que nunca conseguimos ler Jurema para além dos nossos olhos de gula e luxúria interiores...Jurema ensaiou uma tabelinha com a polícia...mas a bola foi pela linha de fundo...
Arrombaram o barraco...Deu no jornal...
Mãe mata filho que chorava de fome.
Jurema foi pra cadeia...e nós para o orfanato de nossa miséria interior...Uhuhuh!!!
Por Mônica Z.


1 Comments:
Mônica;
Nem preciso dizer nada, perfeito, digno de postagem, de publicação, seu estilo é inconfundivél devido as reticências, e como já disse, você tem ziriguidum, balacobaco, molejo, típico do povo carioca. Mas gostaria de ver tudo isso inteiro, só uma vez, inteiro e compactado. Você é uma observadora nata do povo carioca.
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