José
Da minha vida já nem lembro mais...do que restou dela...talvez...acho que as pessoas lembram mais dela do que eu...e isso faz uma grande diferença...Não estou fazendo questão de dizer o que está certo ou errado nessa história toda...o cansaço você pode ver no meu rosto e a dor você pode ler em meu olhar...o resto tá tudo aqui dentro...e de mim ninguém mais sabe...
No morro às vezes os sonhos nascem abortados...como se de repente você tivesse que renascer em outro lugar para resonhar a vida ou o que se espera dela...sem direção...quase sempre o que nos resta é solidão e silêncio...
Bom dia seu José...O silêncio era sempre a resposta...a de sempre...a de todos os dias...O que fazia um dia ser diferente do outro seu José não sabia. A vida tornara-se igual há muito tempo...E naquele momento a diferença entre falar e estar calado pouco importava...
O tempo que estava na cama era contado por um ritual pouco convencional. Ia uma vez por semana ao banheiro...Quando o batalhão de vizinhos chegava era terça-feira nove horas da manhã...Dois nas pernas...outro no dorso...mais dois nos braços e na cabeça...José ficava ali na cadeira higiênica durante horas amparado por dois vizinhos para que não escorregasse e viesse a cair no chão...Nunca gostou de incomodar ninguém, mas nunca incomodou tanto quanto agora...Sentia-de medíocre...menor...nunca gostou de depender de ninguém...Sempre procurou dar um passo a frente dos problemas...Talvez este tenha sido seu grande erro...dar um passo a frente...Recuar às vezes é sábio...ir em frente...suícidio...
Nunca aceitou com gratidão a benevolência que havia no morro por conta de um carnezinho que mensalmente deveria ser creditado em nome de uma instituição filantrópica que nunca existiu gerenciada por um tal Dequinha...Sentia sua liberdade cerceada em metros quadrados e por conta disso reclamava-a a todo tempo, convocando a comunidade a se rebelar contra aquilo que ele chamava de abuso de poder auto-instituído. Tudo em nome de uma suposta segurança comunitária...
Tinha que moralizar o morro...dar um basta nos absurdos ali sitiados em nome do nada...Era uma terra de ninguém...não morreria ali subjulgado a um mundo que não o acomodava...mas que julgava seu...possivelmente era sua história...uma história mal contada...pelo avesso...pela metade...mas sua...
No dia seguinte levantou cedo...Caneta, lápis, identidade, cartão de confirmação. Dois dias depois saía o gabarito no jornal. Sua aprovação para soldado da Polícia Militar injetava nele um sensor ainda maior que a sua indignação rotineira. Fizera dele um projétil pronto para disparar a qualquer distância e em qualquer momento. Não ficaria pelos cantos se escondendo feito um rato que acabou de deixar o esgoto...
A farda pesou...Lá estava ele ostentando o cidadão cinco estrelas que era, fazendo das palavras a sua maior arma...Tirou fotos com a molecada, e abraçou seu Higino do açougue e seu Vicente da quitanda...Os dois o viram nascer e sabiam muito bem do quanto se esforçara para chegar até ali...da luta de sua mãe contra o câncer logo após o seu nascimento...do suícidio de seu pai logo após a morte da mãe...
Seu Higino e seu Vicente eram as referências que José nunca perdera de vista...Acompanharam sua vida tumultuada como filho adotado de uma família que como dizia seu Vicente não tinha merda no cu pra cagar. Para seu Higino aquela família jamais deveria tê-lo adotado. Fizera dele justamente o que ele sempre fora. Um filho adotivo...
Estudara sempre em escolas públicas, enquanto seus dois irmãos brancos estudavam em escolas particulares. A diferença era o marcapasso de sua rejeição. Era como se isso tivesse sempre que ficar bem claro, bem marcado. Gratidão...esta deveria ser sempre a palavra de ordem à sua vida outrora tão ordinária...Quando fez dezoito anos voltou para o morro. Seu Vicente e seu Higino o ajudaram e o mativeram ali...
A rotina do morro no entanto causou-lhe náuseas. Ânsias constantes de vômitos. Ele bateu de frente com a solidão e colidiu com todas aquelas inquietudes que estavam dentro dele adormecidas. Não gostava do que via. A vida custava-lhe cara demais para tão pouco. Não importava quem inventara a arma, o gatilho fora apertado e era ele o alvo...
Não chegaria em casa...Dequinha soubera da novidade rapidamente...Um único disparo...Trauma raquimedular...Suas pernas tombando jogava por terra todos os seus sonhos...Sua liberdade fora recolhida às cochias da dor...Sua ousadia virou tempero nos botecos das esquinas...
Não entendia a vida como circunscrita a papéis específicos para proteger a própria pele...Faria tudo de novo...Não seria ele se não o fizesse...Se ficasse se escondendo como fazia tantos amigos seus, seria o que a vida sempre fora para ele...nada...Que fosse dele então o primeiro passo...Foi seu primeiro e último passo em direção à liberdade...
Por Mônica Z.


3 Comments:
Ficou mais fácil entrar nos EUA nadando do que visitar o seu blog, Mônica.
Mas depois de muito esforço e galhardia incomparável, aqui estou eu!
Eu gostei de várias passagens do texto. Contradições intencionais, e reprodução de diálogos foram de super bom-gosto.
Mas as reticências não impuseram um ritmo tão satisfatório quanto nos textos anteriores. Embora eu goste delas e ache bastante criativo, em "José" eu preferiria o feijãozinho com arroz...
Não acho que precise ser mudado, mas pensado em textos futuros. Até porque usá-las em todos os textos vai acabar tirando o charme!
Achei muito legal o uso do "itálico" ao invés das aspas...
E mais uma coisa, seus finais são sensacionais! As vezes sórdidos, cruéis, outras engraçados, mas sempre sansacionais!
E sugestão, tira essa restrição de leitores. Pra entrar aqui tem sido um parto!
Grande Beijo, Mõnica!
se cuida!!
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Mônica;
Meu "deus"! Voltei aqui para ler José, pois havia simplesmente deixado um convite. Sinto-me orgulhoso por ter o "passe livre" no seu Blog. José é um conto urbano trágico, mas real, e a forma com você confecciona isso minha cara, vou lhe dizer, uma verdadeira Lispectoriana! Acho que estou presenciando o nascimento de uma escritora de porte. Fico vidrado nas belíssimas contruções de suas frases. Quem me dera!
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