Aidê
Ai ai Aidê, olha joga bonito que eu quero aprender...
Aidê fazia parte do nosso patrimônio histórico...era bonita, forte, doce, firme, tranqüila...fazia muitas coisas como ninguém...uma delas era jogar capoeira...Todo sábado a roda ficava maior do que nos outros dias da semana...era Aidê que jogava bonito pra gente aprender...
Um dos ensinamentos da capoeira consistia em ensinar a fazer sempre...o que se aprendia hoje, deveria ser passado a frente...quem aprendeu hoje, amanhã já deveria ser alguém que ensinaria o que hoje aprendeu...a estratégia era valorizar não só o aprendizado e quem ensinava mas também quem aprendia...toda essa troca visava tornar as pessoas mais solidárias e independentes de forma que aplicando seus conhecimentos a outros aprendizes nunca perdessem a noção de que eram aprendizes também...
Aidê jogava como ninguém...pernas, braços e vida em média rés...uma angoleira que no suor que brotava do rosto filosofava os princípios da capoeira, seus ensinamentos e mandingas...Às vezes a surpreendia em silêncio, mastigando a vida...A capoeira passa por avanços e recuos...avançar nem sempre é a melhor estratégia...recuar muitas vezes é sábio, noutras; estupidez...É preciso estar atento ao inimigo...e isso nem sempre significa não perdê-lo de vista...simplesmente não deixar que se aproxime...Jogar capoeira é jogar com a própria vida...com o que ela nos traz, com o que ela nos leva e com sorte...
Era preciso muita concentração para não ser vencido na roda por Aidê. Seu golpe maior era sua própria sedução...ninguém escapava...Ela nascia em seu olhar e espalhava-se por todo seu corpo enquanto o suor contornava suas curvas...Nossos olhos embriagavam-se nas ondas daquela maré cheia e o golpe vinha certeiro...quando dávamos por nós estávamos no chão...Ai ai Aidê...Aidê era a professora e a mestre dos nossos sonhos...
Dias passaram e Aidê não apareceu na roda...fomos a sua casa e dela ninguém sabia...Aidê tinha três filhos e deles também ninguém sabia dar conta...a manhã virou tarde...a tarde, noite...a madrugada então nos abraçou...Durante vários dias procuramos Aidê...não íamos mais à roda...jogar ficou em segundo plano...a ausência de Aidê nos preenchia dia e noite...
Um dia larguei os amigos no bar do Boca e saí pra caminhar... procurava vestígios de mim pelo caminho...a vida era labirinto e naquela noite eu juro que queria topar com o Minotauro...
Quase isso...
Reconheceria Aidê mesmo de hábito...seu olhar...o golpe certeiro...Não era a pistola na minha cabeça que me fazia suar...mas reconhecer ela ali, viva, me golpeando na alma...Ai, ai Aidê...Enquanto os outros reviravam meus bolsos, arrancavam relógio, pulseiras e cordões, meus olhos não tiravam o olhar dela dos meus...eu não sabia que seus filhos já eram tão crescidos...até que o mais novo a entregou...Vãobora, mãe...Mesmo debaixo da touca ninja pude ver seus músculos tremerem...Aidê passou a mão em tudo rapidamente, jogou dentro do carro que nervoso acelerava...
Deslizou suavemente o cano do revólver pelo meu rosto, tirou a toca ninja e me beijou...seu suor misturou-se à minha lágrima...sumiu no meio da noite...me golpeou de morte por toda vida...
Por Mônica Z.
Para embalar


<< Home