...A-verso...®

Porque sempre há muita coisa antes... e sempre haverá muita coisa depois...

Minha foto
Nome:
Local: Rio de Janeiro, Brazil

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Sebastião

O louvor já tinha começado e os meninos ainda não tinham descido...não era costume deles se atrasarem assim, mas devemos sempre estar à espera do improvável...ele pode aparecer a qualquer momento...de forma natural ou encomendado por alguma contingência daquelas que pedagogas adoram utilizar para justificar o fracasso da educação ou da evasão escolar...
A igreja estava cheia...era melhor começar assim mesmo com alguma palavra antes que as pessoas começassem a ir embora...Irmãos...Nunca fora irmão de ninguém...essa forma de tratamento que cabia a ocasiões como aquelas era simplesmente um ato instituído, oxidativo da realidade mesmo que aparente, mas circundante...Nunca tivera irmãos...de sangue foram cinco...de morte também...
O ciúme sempre fora o têmpero de suas atitudes mais inesperadas. Nunca esperou a mulher por mais de 10 minutos em casa...era esquina e escândalo. Se a demora tivesse relacionada a casa dos parentes da mulher era bem pior...os safanões já começavam no portão e neste dia a noite não dormia...Às vezes parece que a vida estabelece uma espécie de parâmetro para se saber o que é estar ou não feliz...Na casa de Sebastião era assim...no dia que Sofia não apanhava era dia de paz...a felicidade sorria na vida daquela gente tão...família...
Foi assim que de paz em paz Sebastião se tornou o bom pastor...já não batia tanto assim em Sofia...sua mão até se esquecera do como era bater numa mulher...bater na filha não era a mesma coisa...Um dia debruçado em sua janela Sebastião sentiu-se bom...bom como nunca se sentira antes...bom de doer os ossos e até o coração...bom no fundo da alma...bom de verdade...Nesta noite quando olhou o relógio deu por conta que Sofia já se atrasara 5 minutos...Não...não...nada nunca mais tiraria a sua paz...quando Sofia apontou na esquina Sebastião sorriu de um sorriso sábio e enigmático...Bem-vinda ovelha desgarrada...Aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra...Vós sois a ovelha desgarrada, Sofia...
Naquela noite Sofia não apanhou tanto como nas outras noites...a noite até dormiu...Antes que ela saísse para o trabalho Sebastião a chamou de cantou e lhe disse Vá Sofia, e não peques mais...Sofia deveria sentir-se agradecida no entanto cuspiu-lhe na cara o gosto amargo do corpo e da alma...Sebastião chegou a levantar-lhe a mão mas não poderia trair-se a si mesmo...ele era bom...Vá Sofia...eu te perdôo...Sentia-se cada vez mais divino...iluminado...Naquele mesmo dia seu filho mais novo chegou mais cedo da escola...fora suspenso por agredir uma colega...
Depois de contar o ocorrido ao pai o menino levou boas porradas...Depois de pensar por longas horas Sebastião profetizou Deixai vir a mim as criancinhas...Daquele dia em diante ele passou a olhar para os lírios do campo...alimentar-se da plasticidade quotidiana da vida...
Debruçava-se sobre o dia e já era noite...acordava à noite e já era dia...Sebastião dizia-se hóspede do tempo...Segundo ele Sofia nunca mais fora a mesma...Ela precisa de aconselhamento...Seus constantes atrasos transformaram-no numa implacável máquina de guerra...Surrava a mulher até a pobre desfalecer...depois acendia um cigarro e pensava...Quem ama educa...Sofia fora internada algumas vezes com várias costelas fraturadas e alguns dentes quebrados...No mesmo dia Sebastião levava-lhe flores...Sem ressentimentos...Sofia era a própria retórica do silêncio...
Um dia ao sair do hospital Sebastião pensou...Bem aventurados os pacificadores...era isso o que ele era...um pacificador...Ouviu o chamado que vinha da igreja...entrou...não foi a frente porque não tinha pecados...tanta convicção impressionou os fiéis...em 1 mês Sebastião era o bom pastor da Igreja da Sabedoria...As conversões tornaram-se um hábito naquelas cercanias...Sebastião perdoava os mais diversos pecados...Vinde pecadores...
Assim que saiu do hospital Sofia teve que converter-se à doutrina sebastiânica...Ela e os meninos tornaram-se os responsáveis pelo louvor...da tesouraria e da pregação ele mesmo tomava contas...A família de Sebastião passava mais tempo na igreja do que em casa...Sebastião dava aconselhamento o dia inteiro...na porta de entrada de seu gabintete um versículo chamava a atenção... Maridos amai vossas esposas. Esposas respeitai vossos maridos...
Certa vez Sofia disse-lhe que não queria mais ir à igreja...Apanhou tanto que vomitava sangue...Sebastião gritava ser aquilo as impurezas da carne...Devido à gravidade dos ferimentos Sofia ficou vários e vários dias sem trabalhar...seus dois filhos tiveram que assumir o louvor da igreja...Lá o que se sabia era que Sofia tinha levado um grave tombo e que estava impossibilitada de receber visitas...Os irmãos prontamente se puseram a orar pela quebra daquela maldição...Oravam dia e noite...dia e noite...dia e noite...até que um dia a noite amanheceu...
Um caminhão com placa de Vitória do Espírito Santo parou em frente a casa de Sofia...Ela passou a mão nos meninos e em tudo que era seu...pegou um prego furou a parede da sala e ali pendurou a roupa do bom pastor...Olhou em volta...na corda nem um pregador...Foi ao banheiro ajeitou o cabelo, enxugou as lágrimas, levantou o peito...Olhou em volta e deparou-se com a imensidão de sua alma...Dizem que foi para o Morro da Chácara do Céu...já Sebastião...
Por Mônica Z.
Para embalar

2 Comments:

Blogger Fábio W. Sousa said...

"Quem é vivo sempre aparece!" Será quanto tempo eu tenho até ser expurgado daqui, do mundinho de "Z"?
"Sebastian". O que vem a ser Sebastian, uma causa, ou um efeito? É possível ver lágrimas, uma análise tão boa que poderia jurar uma vivência singular. Uma capacidade única de expor a própria dor, ou de captar e transmitir a dor. Em ambos os casos diria que vem surgindo a poetisa...
A autoridade religiosa parece ter sido limada, há aí uma influência dos modernos... mas não posso afirmar... uma espécie de humanismo sem dúvida há... há também um pouco de autobiográfico... Há muita saudade, em que trevas andavas? E a um pouco de desabafo... Sebastian! (Ponto final)

terça-feira, junho 05, 2007  
Blogger Unknown said...

Aplausos para Sofia de ontem e de hj..
Marilda
21/10/07

domingo, outubro 21, 2007  

Postar um comentário

<< Home