Quitéria
Esquecida depois da imagem dos dias...plugada depois do arremesso da sorte...deslizou as mãos sobre a superfície áspera do mundo que deixara lá fora...mastigava a noite anterior ainda sob o peso embriagado que a vida lhe cuspira na cara...No arranha-céu sem palavras, a vida contava a sua história...
A patroa era a legitimação de sua meia-vida...protagonista de seus dias nublados...era ela quem garantia-lhe a condição de empregada...que dava visibilidade a sua pouca ou quase nenhuma importância...O olhar de Quitéria flutuava como uma câmera por aquela casa...A patroa gastava por semana tubos de dinheiro para sustentar sua cosmética beleza, e a miséria que ela recebia mal pagava o seu quarto e sala...
A sua comida nunca estava boa...Nunca estava à altura da dignidade nutricional da patroa...Todo dia a cena de repetia, e era sempre na hora de ir embora...Você pode fazer mais uma saladinha...Não era uma pergunta...era um comunicado...A experiêcia de estar vivendo a vida de outras pessoas de forma tão adestrada não a agradava em nada...Quitéria projetava-se na vida como um editor de imagens pronto para gravar as cenas dos próximos capítulos...
O patrão só vinha para casa aos finais de semana...Nunca a chamava pelo nome...Nunca Quitéria...Ela não passava de uma contingência...Eles precisavam de uma empregada e ela estava ali...Fazia parte da disposição um tanto quanto sórdida do politicamente correto...Sustentava o statu quo da patroa ao mesmo tempo em que era colocada em seu lugar de minoria assistencializada...Escutara algumas vezes a patroa ao telefone...Ah! mas é claro que ela vai aceitar... É tão necessitada...No dia seguinte lá estavam as roupinhas em um saquinho no cantinho do quartinho da empregada...
Odiava diminuitivos...Surgiam como sinônimos de tudo que vem a ser menor ou sinônimos de favores disfarçados de humildade...Comprar um biscoitinho no mercado...dar um pulinho na tinturaria, passar mais um paninho na casa...Tudo era muito simples na ótica de sua patroa, mas não na ótica de Quitéria...Mastigava os momentos que passava ali naquela casa como quem edita as últimas cenas de um longametragem...
Queria reconhecimento na vida...receber beijo de bom dia...sentar à mesa e comer pão fresco...beber água na garrafa...queria a vida...Seus quereres misturados às suas fantasias corriam nus por aquela casa tão sem abrigo e proteção...Seus sonhos tinham ainda os pés descalços e seu coração dilatado engolia a escuridão...Em noites de frio a esperança recolhia-se companheira...Pela manhã servia-lhe uma xícara de café e ali ficavam durante horas mastigando aquele silêncio carcomido pelos anos de vida abreviados em uma cela podre de dejetos humanos...Falta do tempo do tempo que falta...
Sabia de tanta coisa...e para eles isso não dizia absolutamente nada...O brilho dos móveis...Os espellhos sem manchas...Nunca seria reconhecida por nada em lugar algum...Por melhor que fosse, sempre seria o pior de qualquer um...
Numa tarde a patroa resolveu transferir as aulas da academia para dentro do seu quarto...A camisola de seda vinho esquecida no corredor...Sucos de clorofila à meia luz...Suas mãos ásperas de tanto cortar batatas fisgando a camisola...A dieta da patroa parecia ter ficado para trás...encontrara um outro jeito de queimar calorias...
As noites alimentavam o seu silêncio madrugada afora e invadia de desejo o quarto da patroa...Você tem sorte de ter um emprego, Quitéria...um cantinho pra repousar sua cabeça...Nunca entendera isso como sorte, mas como capitulação dos seus dias de embriaguez... Nunca mais seria esquecida...
Destrancou lentamente a porta da sala...Ainda teve tempo de olhar pela última vez nos olhos do patrão...Um estampido oco, quase surdo...O corpo da patroa deslizando pela parede do corredor tingindo de escarlate sua camisola de seda vinho...De quem era a sorte...A agenda da patroa com todos os telofones do marido esquecida sobre a mesa da sala...Suas mãos...lâminas de cortar batatas...O que era a sorte...O vulto de um homem nu cambaleando em direção à porta da cozinha...De quem era...Batata frita...O que era...Suco de clorofila...a sorte...
Por Mônica Z.
Para embalar


2 Comments:
Sorte
Fábio W. Sousa
A sorte é um nome, simplesmente, um nome que foi dado a quem foi agraciado com um objeto de desejo, de valia, ou de grande utilidade, necessidade, mas não é um prêmio por se ser bom ou, por se deixar de ser mal. Acredito nisso. Mas não quero que aceite como doutrinação. A sorte não escolhe o sortudo, este pode ser bom ou simplesmente não valer nada. Um homem mal poderá estar andando na rua e de repente tropeçar em uma pedra arrancando o tampão do dedo, o que seria um tremendo azar. Mas de repente se ele olhasse as coisas por um ângulo diferente poderia ter observado que a pedra na verdade, tratava-se de um enorme diamante, o que seria um tremendo de um azar com sorte. A sorte nesse caso é como a verdade, estando inserida dentro de um perspectivismo absurdo. Ah, minha cara! Somos fruto do absurdo. Deus é um absurdo! E a sorte é como Deus, um absurdo que não tem explicação. Há quem acredita que a vida é uma sorte, que está inserido nela seja uma sorte; todavia, há quem crê que estar nela é um puta de um azar. Neste caso há o cético que se acredita um azarento e o cético que se acredita um tremendo sortudo. Da mesma forma o dogmático. O que importa na verdade é amar isso que damos o nome de paixão, essa categoria tão linda que é a paixão, que forma o conjunto dos sentimentos no qual o homem possui milhares deles, pois são deles, com eles, que os seres humanos constrói isso que tanto amamos... A literatura. Seria isso uma sorte?
http://fabiowsousa.blogspot.com/
Cole no seu blog, acho que não terás mais problemas... Eu acho!! rsrsrsr... acho que foi por que eu mudei o endereço, coloquei o meu nome, sei lá... Beijos!
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