Adelaide
Às vezes o cheiro da terra ia pelos ares como se um vendaval varresse a vida depois de muitas e muitas mortes. Metonímias e metáforas misturavam-se. Era o congresso do indizível à beira da falência do nada...Era nessas horas que Adelaide sentava e olhava fundo nos olhos do mundo questionando a resposta tão sem vida nos braços de uma dor tão dolorosa. Adelaide...subir escadas...Adelaide...descer escadas...Nada quase sempre tudo...tudo quase sempre nada...
Às vezes sentia-se extremamente underground...Ficava horas sentada à beira de seu abismo pessoal olhando meticulosamente nos olhos do tempo...Parecia que o silêncio de sua vida ecoava vazio dentro de sua história...Viver é difícil...sobreviver muito mais ainda...Um dia ouvira seu pai cantarolar uma música que dizia que o mundo era um moinho...o dela era uma cangorra enferrujada que nunca subia...
As crianças chegariam cedo no sábado...Deveria ser uma boa mãe...Mãe deve ser sempre boa, compreensiva, acolhedora...Deveria demonstrar alegria ao reencontrar os filhos...É o que todos esperam de uma mulher que tem filhos...Você só vai saber o que é ser mulher Adelaide, quando for mãe...Tivera três...teria que ser uma supermãe...mas não era...e não fazia nenhuma questão de sê-lo...
Chegaram...Abraços que escapam aos beijos...beijos que escapam aos braços...dias que escapam à vida...vidas que escaparam à vida dos seus braços...Nada mais importava tanto assim...Se perdera a guarda dos filhos para o cretino do Tião, cretina mais ainda fora ela ao acreditar em promessas de meio-dia...Não trouxe sorte...Tinha raiva de Tião...de seu caráter tão sem importância...de seu vale-quanto-pesa...tinha raiva de suas lágrimas quando via as crianças...
Pesou a vida...pesou o câncer...pesou a conta gorda da vadia...pesou a história...Os filhos chegaram abortados...partindo...sem motivo de estar ali...sem coração...sem sangue ou veia...Foram embora da mesma forma que chegaram...horizonte pro nada...Feliz Natal Adelaide...Sobe escada...tão vazia...Desce escada...tão vazia...Adelaide...
Por Mônica Z.
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8 Comments:
"Hoje estou exultante! Sem desperdiçar nem uma gota, despejei minha alma até o fim" em Adeláide. Sempre Lispector, estudando a alma, sempre "Clarisse". Difícil, um labirinto; porém, deixa pistas como Perseu. Te vejo sentada numa dessas escadarias enormes, que serpenteia os morros carioca, sempre a observar, aquele que desce, aquele que sobe, aquele que sobe e não desce, e aquele que desce e não sobe. No horizonte, o sol vermelho-amarelo risca o mar, e o seu coração pinga, pinga, pinga...
(citação: Maiakóvisk. Vida e poesia)
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Carta à Adelaide
Fábio W. Sousa
Adelaide, foi ao menos te dito que toda a tua dor era previsível?
Que o problema estaria na tua auto-suficiência? Na tua impertinência típica da juventude que não mira o velho oceano da vida. Nunca destes importância ao passado, à tradição, ao que está fora, ao que transcende, nunca mirastes os fracassos, Adelaide?
___ Importou-se simplesmente com o que é palpável, científico, efêmero ___ Acabou por perder-se dentro de si. No mundo construído da subjetividade do teu “eu”, na imanência da tua alma, vencida pelo câncer que também quer viver ___“A vida é luta, viver é lutar!”___É, Adelaide! Devia ter prestado mais atenção àquela música que teu pai cantarolava:
“ Ainda é cedo amor/mal começaste a conhecer a vida/Já anuncias a hora de partida/Sem saber mesmo o rumo que irás tomar/Preste atenção querida/Embora eu saiba que estas resolvida/Em cada esquina cai um pouco a tua vida/Em pouco tempo não serão mais o que és/Ouça-me bem amor/preste atenção, o mundo é um moinho/Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos/Vai reduzir as ilusões a pó/Preste atenção querida/Em cada amor tu herdaras só o cinismo/Quando notares estás a beira do abismo, abismo que cavastes com teus pés”
Teu tempo é apenas uma minusculo risco na areia da praia que teus olhos, acostumados, cansou de contemplar... Era! O vento apagou?... Destes mais importância à tudo aquilo que foi construído recentemente, e é bem provável que estejas impregnada da filosofia imanente. Não consegue ver o risco, não consegue ver o fio condutor. Está confusa, está com medo Adelaide! Quanto tempo ainda lhe resta? Respondo-te: “Toda a eternidade, Adelaide, toda a eternidade...”
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"Um dia ouvira seu pai cantarolar uma música que dizia que o mundo era um moinho...a dela era uma cangorra enferrujada que nunca subia..."
"Z"
"Em pouco tempo não serão mais o que és/Ouça-me bem amor/preste atenção, o mundo é um moinho"
Cartola
Eu futrico mesmo os teus textos!!!
Adelaide..mãe , mulher, pessoa.As idas e vindas de Adelaide.
Esperamos sempre alguma coisa..alguém..e Adelaide, o q conseguiu? Passou...Viveu..Subiu..Desceu..Quem se importou?
Marilda
19/10/07
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