Benedita
Gostava da casa de vários telhados porque um telhado jogava em outro telhado folhas secas e velhas...achava que havia poesia em se ter vários telhados...Gostava de sentir o vento em seu rosto e de sentir o vento bater nas folhas das árvores...era como uma escola de samba feita só de chocalhos...Imaginava o telhado cheio de gatos chocalhando as folhas...fazendo delas travesseiros de palha...
Trabalhava no quarto andar do prédio ao lado e fazia daquele quadro sua mais completa obra. Debruçada sobre a vassoura ficava imaginando-se levitar de penhoar pelos cômodos daquela casa de folhas e gatos...Seu olhar estreito de quem sempre obedecia dava lugar a uma expressão distante e feliz como alguém que experimenta o sabor de um doce roubado quando se tem fome...Às vezes era supreeendida pela diretora da escola sonhando em meio ao expediente de trabalho...banheiros por lavar...café por fazer...e o sorriso sempre dilatado de bom dia para quem quer que fosse porque todos sempre seriam superiores a sua vida tão cartão de ponto...
Um dia chegou ao trabalho de semblante fechado...não deu bom dia a ninguém...não olhava para ninguém...não queria estar ali...não queria saber de ninguém...Foi chamada à direção que lhe perguntou o que estava acontecendo...Perguntou se ela estava pensando que aquilo ali era a casa da sogra ou a casa da mãe joana...Ficou olhando cataléptica para a diretora que exigiu dela uma resposta satisfatória...O que seria uma resposta satisfatória - pensou...Sabia que ali não era a casa da sogra...quanto a casa da mãe joana...Minha sogra me mandou embora de sua casa...meu marido saiu de casa há 1 mês, e como ele não voltou ela me botou pra fora...Não sabia se aquela era uma resposta satisfatória, mas naquele momento era tudo o que tinha a oferecer...A diretora falou que não tinha nada a ver com seus problemas pessoais...que aquele ali era um lugar sério...e que se ela não estivesse satisfeita que pedisse as contas...
Benedita pensou em pedir as contas...primeiro do emprego...depois da vida...Depois de muito pensar com os seus botões resolveu pedir contas à vida...Tomou banho, jogou o uniforme da escola na lixeira, foi à sala da direção, cuspiu na cara da diretora e limpando a boca com as mãos disse que agora estava muito satisfatória...Puxou um cigarro, tirou um trago, foi até a esquina procurar a casa da mãe joana já que a casa da sogra...Deu de cara com a casa de muitos telhados... das folhas velhas e secas...
O portão entreaberto...Entrou...A casa era de um verde-água que misturava-se a um limo que entranhava-se pelas bordas da piscina, portas e janelas...Havia uma outra pequena casa aos fundos...Passou a mão no vidro da janela que dava para a cozinha...Aquela casa...a sua tão sonhada casa não passava de uma casa velha e abandonada assim como ela...A maçaneta estava quebrada...parecia que alguém havia estado ali antes dela...Foi entrando quase em câmera lenta...as teias de aranha e a poeira fotografavam o tempo...havia móveis mas a mobília estava toda revirada...Foi até a sala...a escada em madeira dava para o mezanino...subiu...
Contemplava a casa quase que enfeitiçada pela magia do tempo que sempre a manteve presa àquele lugar...Onde esteve durante todo esse tempo...Tudo aquilo ali era agora seu...Sua vida...seu espaço...sua história...A morte a acompanhara durante toda a sua vida...Vivera para o marido...para a casa...para os filhos...Todos haviam ido embora...Aquilo ali agora era o seu mundo e ele era tudo o que restara dela...do seu tempo de quando ela ainda não era...Pela primeira vez era apresentada a indizível...
Deslizou a mão sobre o corrimão...passou a poeira dos anos pelo seu corpo como se quisesse que aquela poeira carregada de memórias ocupasse as suas entranhas de forma visceral como se ela lhe pertencesse...Abriu as janelas da casa, do quarto, davida...Abriu as portas do guarda-roupas...pegou um penhoar...Acabara de acordar...
Desfilou pelo corredor como uma rainha...tinha o mundo sob os seus pés...Foi até ao jardim e olhou para cima...Lá estava o tempo passado sob o qual esteve subjulgada como um inseto preso pelas patas do gato que antes de matá-lo diverte-se com a sua impotência e incapacidade de reação...Sentou-se à mesa do jardim...mandou servir o café...pegou a xícara de chá e mostrou que sabia segurá-la como cabe a uma dama...Bebeu do silêncio que lhe consumia a voz e a alma...Bebeu de si...da vida...
A luz se aproximando, iluminando o seu rosto era finalmente reconhecimento e legitimação- pensou. Estava sob o efeito da magia que tudo aquilo lhe proporcionara...Levantou-se para receber os aplausos das pessoas que acotovelam-se para vê-la...Estendeu as mãos...os flashs...Tudo aquilo ali era o banquete da sua vida...Caminhou até o portão...
O policial - um vizinho seu - abaixando a sua cabeça com as mãos quis ajudá-la a entrar no carro...Ela fez que não...Aquela ali não era mais a personagem que inventara durante tanto tempo como mãe, esposa e mulher...Era Benedita...Diante dos flashs e da multidão cochichou no ouvido do policial...Ele retirou-lhe as algemas e as guardou...Ela sorriu para a multidão e entrou no carro de cabeça erguida...
Nem se dera conta de que já era outono...quando as folhas caem e as noites são frias...quando um telhado joga em outro telhado folhas secas e velhas...O carro desfilava lentamente pela alameda enquanto ela acenava para todos aqueles olhares curiosos que a ovacionavam como a dona da história...da vida...do tempo...das horas...
Por Mônica Z.
Para embalar


2 Comments:
Que coragem a de Benedita, já imaginou o que seria do mundo se todos fossemos
Beneditas, pois, todos somos... Falta-nos apenas o desabrochar da coragem... Falta?! ... Apenas?!
Li Bene e fixei meu "olhar" na percepção do limite entre a loucura e a lucidez .Onde situá-la?E eu? rs...a vida está,a todo momento ,nos exigindo posicionamentos e por vezes acenamos com altivez ou "falsidade"... mudamos de calçada, desviamos o olhar.Esquecemos? Enlouquecemos? Agimos?
Rever sonhos, (re)visitar porões . Sim senhor, Não senhor..bye, bye.
Coragem...Benedita...Bene.
Muito bom, Mônica Z.
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