...A-verso...®

Porque sempre há muita coisa antes... e sempre haverá muita coisa depois...

Minha foto
Nome:
Local: Rio de Janeiro, Brazil

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Joaquim

Não bebia para esquecer...bebia mesmo para lembrar o tempo agora...o tempo instante que salta à matéria bruta de dias e noites intermináveis...Bebia para lembrar o bicho menos bicho que repudiava as noites sérias de reflexão e trabalho tão tapinhas nas costas, bordando de suor sua melhor camisa...Bebia pelo desconserto do mundo tão em media res ao encontro do que não serve, do que não faz falta, do que não faz falta alguma...
Joaquim era o texto antes da escrita...a folha em branco que teima em não riscar...o choro guardado em papel de seda...a angústia da mãe que não chega...o filho que partiu...Beber fazia parte de um tempo presente depois da grande espera indecifrável do novo grande dia seguinte...a esperança de útero seco...Beber era embriagar-se da vida e isolar-se do mundo...difícil era o caminho da volta...ter que dar conta daquele silêncio que o devorava...corpo e alma desalinhados nas encruzilhadas de si mesmo...
O fato é que não precisava do dia seguinte para justificar-se diante da vida...era a vida que não o deixava em paz...que insistia em mantê-lo vivo mesmo depois do dia seguinte de portas fechadas e esquinas desertas...A casa pelo avesso...a comida azeda em cima do fogão...o vômito na roupa dizendo da sua incapacidade etílica...Não sabia beber...tinha que parar com isso...as contas já vencidas no chão há não sei quanto tempo...o cachorro dividindo com ele o espaço da cama...o dia se entregando à tarde...a luz cortada...a casa o expelindo como a um corpo estranho...
A diferença estava no espelho...no retrato sujo e lameado pelos seus olhos que não se cansavam de se embriagar de uma felicidadade inventada, hipocondríaca...Ali estava a resposta...Silenciosa chave de porta alguma...Ali estava a estrada amputada e sem saída por trás de um amor tão sem medida...ali estava o desespero da alegria de um amor que se abria em pétalas sempre, e sempre deveria ser para sempre e nunca tempo demais...Ali estava o homem por trás de um mundo tão simetricamente perfeito...um mundo que o asfixiava como a um soldado raso...
Joaquim era a sombra que vagava por trás do homem...a medida necessária para a composição de um salário estúpido...Ganhava dinheiro inventando histórias para os clientes...era quase um exorcista...um embuste acima de qualquer suspeita...O terno bem cortado...a barba feita...o perfume francês...um sorriso seguro...o grande investidor de tapinhas nas costas...O homem do bar...da gorjeta gorda se escondendo atrás da cortina de fumaça...da ferida em carne viva bordada no espelho...
Às sextas-feiras ia para casa cedo...Dona Iná já transformara o seu hades em olimpo...Os seus chinelos postos do lado esquerdo da cama...a casa cheirando a lavanda...Aquele cheiro de memória inebriava o seu corpo e enchia a sua alma de lembranças...as cortinas limpas apontavam para um mar vivo batendo lá fora...Aquelas ondas o inundavam de uma esperança amarga...
Mandava limpar a casa todo final de semana para receber os meninos...Há três meses não apareciam...Aquela casa tão limpa punçando a sua culpa como uma maldita máquina de hemodiálise ria dos seus bons tratos...da sua barba tão bem feita...dos seus desejos domésticos tão paternalmente nobres...O quintal...todos aqueles brinquedos tão cordialmente limpos, reclamando digitais de biscoitos recheados...
O sol se pondo adormecendo toda a casa de silêncio e tingindo de pavor todas aquelas vozes emudecendo dentro dele...atestando mais uma vez a ausência dos filhos e a incompetência do grande investidor...Era ele o próprio embuste...a grande mentira aos cuidados do medo e da covardia...
Da janela observa o mar na arrebentação enquanto o sol adormece por trás das pedras...Corre à porta do guarda-roupas, e com a coragem de um menino quebra o espelho...Com a mão cortada corre pela casa, e com força de um homem chora baixinho no canto do quarto...Não bebia para esquecer...bebia mesmo para lembrar...
Por Mônica Z.
Para Fábio W. Sousa
Para embalar

3 Comments:

Blogger Fábio W. Sousa said...

Uma dose de Joaquim
Fábio W. Sousa


Há tantos Joaquins quanto o número de botequins. Um dia Joaquim chega a pegar no sono embriagado, e quando acorda, descobre que partiu, Maria. Que em Maria havia um limite a ser suportado. Há quem culpará Maria por teu limite tão dosado, tua falta, tua impaciência, mas o que se há de fazer, se a vida é como um copo de cachaça, que recebe do tempo doses curtas de alegrias. Num não tão belo dia a vida se derrama, se esvazia... Como o copo de cachaça!

sexta-feira, agosto 08, 2008  
Blogger tudoenada said...

Monica, muito interessante o seu texto e a análise que você fez, incluindo, é claro, a fotografia que o precede - uma espécie de imagem-síntese perfeita do texto. Todos nós vivemos num mundo de opostos. De luz e de sombra. Cabe a nós, fazer a distinção deles e ter a melhor escolha. Adorei seu texto! Parabéns!

quarta-feira, outubro 29, 2008  
Blogger Gui Guilherme said...

É claro que eu devia e devo-lhe algumas visitas, estou pagando a primeira agora!

Parece que não sou eu que sou ácido... A bela escrita e fala que lhe é peculiar está presente aqui no seu blog!

Parabéns Mônica!!!

Bjss

segunda-feira, novembro 10, 2008  

Postar um comentário

<< Home