Marieta
Marieta era preta de um só dente...era preta de rezadeira, e rezadeira de toda gente...Marieta gargalhava como quem tem todos os dentes...e todos riam da alegria de Marieta, porque achavam engraçado a sua alegria de um só dente...Marieta tinha reza pra todo mundo, mas dizia que as mulheres pediam mais rezas do que os homens...Marieta dizia que as mulheres eram mais cismadas...
De rezadeira Marieta passou a benzedeira...de benzedeira a raizeira...A cada dia Marieta aumentava mais o seu negócio...Era tanta gente pra atender que Marieta colocou tabuleta com horário de atendimento...Às segundas-feiras Marieta tirava folga...dizia que não estava pra ninguém...Não estou hoje nem pra mim...e gargalhava...Marieta era doce igual xarope de guaco que ela dava pra criança que tava mal dos pulmão...
Quando o calor ia forte Marieta botava a cadeira na calçada e ficava olhando pra todo mundo que passava...Pra cada pessoa um comentário...Tá gorda...bonita...Marieta achava que estar gordo era sinônimo de ser bonito...Os magrinhos procuravam passar de largo quando Marieta estava na calçada, caso contrário tinham que entrar e serem submetidos a uma sessão de garrafada que era pra ficar forte...e era magrinho que não acabava mais...
De tanto encalçadar em frente de casa Marieta virou conselheira...e era conselho que não acabava mais...e pra tudo quanto é tipo de gente...Tinha conselho pra menina que não menstruava e pra menina que era assanhada demais...Tinha conselho pra dona casada e pra dona solteira...Pra menino moço e moço homem...Tinha conselho pra mulher fria e mulher quente...Tinha conselho pra falta de fome...aperto no peito...quentura no corpo e nas partes...Tinha conselho até pra falta de sono...
As receitas de Marieta eram as mais diversas...Era um tal de comprar roupa virgem...catuaba...guaraná...tomar banho de abre-caminho...banho de assento...dieta das sete luas...Aparecia gente de tudo quanto é jeito...Era dor nos quartos, dor na bacia, ventre virado...Xi fia, isso aí é espinhela caída...Ó, isso aí é quebranto...Ih, é mau-olhado...Era um tal de assa-peixe, quebra-pedra, cana-d0-brejo, erva cidreira, erva-doce pra cá...arruda, manjericão, rosa branca pra lá...Na verdade, ninguém sabia onde começava a conselheira e onde terminava a rezadeira...
Marieta era assim...todas as nossas inquietações dormiam em seu colo...e num abraço o peso dos nossos dias transformavam-se em brisa que os seus olhos dissipavam apesar de já tão embaçados pelo tempo...Marieta nos recolhia um a um de nossa vergonha de cabeça baixa quando fazíamos coisa errada...Seu olhar debruçado sobre os nossos sonhos nos enchia de esperança de crescermos e sermos para sempre protegidos por Marieta...
Era uma vez a galinha...
A galinha có có có...
Era uma vez o pintinho...
O pintinho piu piu piu...
Acabou...
Por Mônica Z.
Para minha avó...
Marieta...
Para embalar


3 Comments:
Parabéns pela beleza do texto: correto, puro, animado...
Marieta é bela, é viva , é sensível, sábia..Quanta saudade !!! Conselhos , conversas,histórias, rezas..simplicidade..olho bom!!
Obrigada pela emoção que senti ao ler Marieta.
Bjs
Marilda
Para ir até o fim
Gostei muito da sua última criação, uma homenagem póstuma, tardia, mas uma homenagem. E você cada dia mais Clarice. Está mais corajosa. Quantas fotos no teu orkut... Deve ser uma professora muito especial. A escritora aí dentro vem quebrando barreiras. Sinto um otimismo nascente. Ah! Seu tivesse o teu dom para arquitetar frases de efeito tão belas, me arriscaria nas letras... Em Parati, por exemplo.
Fico feliz quando me convida para conhecer tuas personagens, essa me parece especial, tratando-se de sua saudosa Avó, elas são mesmo marcantes em nossas vidas, também tive a minha, imbuída desse mesmo conhecimento por ti descrito, chamo de senso-comum. O que seria de nós simples mortais se não fosse o Senso-Comum. Sou um apaixonado por essas coisas transmitidas de geração pra geração. Uma vez na minha terra natal, depois de ter tomado umas e outras, recebi a visita de minha Avó, ela fora me curar de uma tremenda ressaca, não sei o que seria de mim se não fosse as ervas milagrosas de minha Avó. Sofro ainda com minha debilidade para o álcool. Agora arranjei uma pressão-alta do caralho, será que tem umas ervas pra isso também? Ao menos são mais baratas do que os remédios destas multinacionais farmacêuticas. O rombo começa pela consulta com o profissional da medicina, depois a máfia dos laboratórios, uma vez diagnosticado o mal, vem os remédios, cada qual mais caro que o outro. E o princípio ativo vem da natureza, que uma vez industrializado torna-se patenteado. O conhecimento deveria ser patenteado também, como bem da humanidade, e os governos deveriam ter o controle estatal de toda indústria farmacêutica... Doce ilusão! E o governo lá quer responsabilidades, se arriscar a ter que indenizar milhares de pessoas por erros provindos da ciência especulativa. Talvez o melhor e que tenha mesmo essas empresas. O que falta nesse nosso povo é vergonha na cara, para cobrar dos governantes melhores condições de vida, daí menos doença, menos gastos com remédios homeopáticos, alopáticos, sei lá. Quem sabe o melhor mesmo fosse manter viva a tradição de nossos Avós, tantas vezes injustiçados, afinal, são concorrentes diretos destas industrias. Quem nunca tomou um remedinho de uma vovó... Um pouquinho de chá não faz mal a ninguém.
Bom! É isso... Gostei pra valer do teu texto, mas quero te dizer outra coisa, conheci um escritor fluminense muito bom, você bem que podia apresentá-lo para os seus alunos, chama-se João do Rio, ou Paulo Barreto, Claude, José Antônio, Caran d'Arche, Joe, Godofredo de Alencar, sei lá, uma espécie de Pessoa... com sua Alma Encantadora das Ruas.
Fábio W. Sousa
20/07/2008
Monica, adorei o seu texto, pelo que você escreveu e pela pessoa especial que você retrata: a sua avó. Além de muito bem organizado e detalhado, confirmo o que me dissera: é possível sentir a mensagem como se fosse para cada avó de cada pessoa que o lê. E isso o torna mais apreciável e lhe dá um valor inigualável. Parabéns por esta grande obra!
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