Paulo
Acordava sempre bem cedo, e da janela olhava toda aquela paisagem suicida se desfazendo após o desmoronamento humano. Ribanceiras de carne e ferrugem rolando morro abaixo, desenhando o hemisfério de uma paz sórdida, cheirando a cachaça e miséria... Câmera lenta de angústia e morfina...
Bom dia, seu Paulo? A voz não saía... A esperança escorria lodosa... era ponto final e não mais reticências...
Bom dia, seu Paulo? Devia ser mesmo seu...de alguém, de todo mundo ou de mais ninguém. Não sou meu... sou do morro... Não sou daqui... Este não é o meu lugar... Nao sou de ninguém... Há uma filosofia que de tão política e canhestra ajuda a popularizar o morro ao mesmo tempo que o exclui do lado de lá. A demarcação vai além do que um simples advérbio de lugar...Era da favela... Não era da favela... Não era de lugar nenhum...
O que nos sobra depois da esquina do silêncio? O que nos resta depois do fascínio pela paz? A vida abortada pela náusea escarlate, debruçada sobre os bunkers da covardia e dos acordos insalubres dos pactos provençais. O morro se desfazia sob os seus próprios restos e sobre os restos da humanidade que incidia sobre aquele emaranhado de barracos, que debaixo de sóis escaldantes incendiavam os miolos de crianças, velhos, moços e moças patrocinados pela midia globalizante da tv alegria que falava de um tempo bom, de praias lotadas, no entanto que não banhava aqueles barracos arquejantes...
No morro, tempo bom era tempo de chuva caindo sobre as telhas de amianto...
No morro, tempo bom era tempo de chuva caindo sobre as telhas de amianto...
O sol marcava o tempo bom dos brancos-pretos ricos... a chuva, o tempo ruim dos pobres pretos-e-brancos... favelados... Éramos vitrines do deslizamento da transparência e da honestidade. Ibopes de um tempo de cartas marcadas e silenciadas... Vai aonde, seu Paulo? Tombou ali mesmo vítima de uma bala perdida...
Por Mônica Z.


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