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sábado, 20 de dezembro de 2008

Estevão

Nunca foi muito de falar...falar pouco para ele sempre foi sinônimo de sabedoria...De família humilde, Estevão nascera simples e morreria assim também...Nunca teve grandes pretensões sociais, dizia que isso era para pessoas inteligentes, e que esse não era o seu caso...Sentia-se descasado com com a vida...Seu compromisso era com a morte, afinal era dela que tinha que fugir, era dela que se escondia...a vida era contingência; a morte, pagamento, penitência...
Era de impressionar que já próximo a sua aposentadoria ainda carregava marmita com tantos self-services ao alcance dos seus dias tão contemporâneos...Mas não ligava para isso...mal sabia pronunciar o nome desses selfis aí...e quanto ao fato das pessoas falarem sobre ele carregar marmita, isso ele desconhecia...Se falavam, falavam em suas costas...não ousavam encarar a sua antirretórica tão azeitada de palavrões...Melhor deixar quieto...
Estevão impressionava na verdade mais pelo silêncio do que pelos palavrões...Estes saíam quase que performáticos...completudes da sua pouca instrução...isso ele dizia. Estevão era um sujeito comum...Nasceu preto, nunca se sentiu discriminado por isso porque, dizia ele, em pé de jabuticaba quem tem dentes brancos é banguela...Lembro-me dos seus dentes sempre muito brancos e grandes também...
Depois do almoço, Estevão parecia vislumbrar dias melhores...parecia que o pequeno repouso antes de retornar ao batente aguçava-lhe o desejo de dias mais amenos, menos ditados pelo ritmo da tecnologia e da ciência...Nunca tivera um plano de saúde...nunca ficara em casa um dia sequer por conta de doença alguma...e ao mesmo tempo nunca vira tanta gente matando e morrendo com tanta frequência...Hospitais lotados, cemitérios lotados por morte de morte e morte que não se entende...
Os morros lotados viraram favelas, as favelas lotadas viraram complexos, os complexos lotados viraram depósitos de maldade e violência...Os pais de família, assim como eu, as donas de casa, ah, esses não contam mais, não...Eram a parte do igual...do comum...do que não representa...do que ninguém quer mais saber...As pessoas de bem que moram nesses lugares são sobreviventes de guerra, e vocês se preocupando com a minha marmita ou com o que eu vou fazer com o dinheiro da minha aposentadoria...
No turno da tarde Estevão tornava-se mais silencioso e menos atento também...dizia que a tarde conversava só consigo mesmo...Achava que o fato de ter vivido mais da metade da sua vida na favela fazia dele um homem de sorte...Apesar de já se sentir bastante cansado, sentia orgulho pelo fato de nunca nenhum problema do coração ou de pressão lhe tirar do trabalho...Nunca faltara um dia...Nunca sucumbira nem a doença, nem ao cansaço, nem a ciência, nem a tecnologia...No final tudo é a mesma coisa...Todos olhavam-no como uma coisa ultrapassada, velha...ferro velho irreciclável...
Ah, mas deixe isso pra lá...Deixe esses pensamentos adormecidos...é melhor que não acordem mesmo...Estava indo para casa descansar...Agora descansar de verdade...Amanhã não precisaria ir mais ao trabalho...Hoje fora o seu último dia mesmo...Já tinha dado entrada nos papéis...Meus D'us! Mais de trinta anos de dedicação sem faltar um dia...Era um sobrevivente...e isso fazia dele um homem ainda mais forte...
Naquele dia deitaria mais cedo...O dinheiro...uma casinha no baixo para aliviar as dores nas pernas...um terreninho...Na cabeceira, um livro de história que explicava sobre a Lei da sexagenária...Leu atentamente...tão atentamente que nem percebera quando o livro escorregara das suas trabalhadoras mãos...O pessoal da repartição quando chegou à sua casa de supresa com bolo, bolas, línguas de sogra e chaupéuzinhos para festejar a sua aposentadoria, mal não acreditava no que vira...O livro no chão, sua mão estendida para fora da cama e a outra sobre o peito...Aquelas mãos tão trabalhadoras aposentadas da vida...
Ajeitaram-no na cama, fecharam os seus olhos, cantaram parabéns, soltaram fogos, beberam, se inebriaram com todos os humores que se dilatavam de seus corpos num assomo de espasmos e náuseas...Ligaram para família, ninguém podia vir de tão longe...Passaram a noite velando o corpo de Estevão...Enterraram-no no dia seguinte...dia do seu aniversário...A morte chegara de surpresa como presente de véspera...
Por Mônica Z

1 Comments:

Blogger marilda said...

Tal como Estevão, este Estevão demonstrou coragem de se posicionar diante da vida e não se rendeu aos apelos do dias de hj.Manteve o olhar questionador,firme, observador.."não se deixou escravizar".Festa, muita festa para Estevão.

Parabéns, Mônica
Li e voltarei aler..
bjs
Marilda

quarta-feira, março 04, 2009  

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