Maria
Era conhecida como Maria... Salve, Maria! Tinha vocação para o sacrifício. Pela manha, nove lavagens de roupa; à tarde, creche; à noite, supletivo; de madrugada, iluminava o mundo trazendo à luz diversas crianças que a chamavam de vó. E haja vó para tantos netos...
Maria era ave, porque mergulhada nos problemas dos outros, encontrava solução para esquecer os seus, porque os seus sempre lhe pareciam insolúveis. Dava conselhos de uma forma tão firme e convicta que parecia já ter vivido das mais diversas agruras e dificuldades.
Maria era Maria do morro, Maria do céu, Maria parteira, era Vó Maria. Foram longos e intermináveis anos corando roupas no chão de cimento do quintal. Anos, sendo mulher, mãe, vó, mas agora era só Maria. Todos tinham partido em busca de uma vida melhor, deixando ela ali com as suas reminiscências de todos os dias.
Rutuais eram as missas de Domingo. Gostava também de ouvir a hora da Ave Maria às seis da tarde. Sentia-se homenageada...ria e chorava. Nessas horas, movida de profunda reflexão, pensava: Não sou Ave Maria...não posso ser a mãe de Deus...
Pobre santa Maria...
Nos dias de verão, Maria costumava rezar no quintal o terço em voz alta. Pedia chuva para aqueles que não tinham ar condicionado em casa. Dizia que o progresso não era coisa de Deus. Progresso demais deixava o chão sem grama, as matas sem árvores, as ruas tossindo monoxido de carbono. Progresso demais, pensava ela, deixava o alimento enlatado, as caras das pessoas esticadas como se fossem bonecos de plástico.
Maria adorava ver novela, adorava aquelas histórias tão cheias de bonitezas...E aquelas atrizes do seu tempo... tão conservadas...Devem ter feito plástica...Agora até entendia o porquê das caras ficarem de plástico, sem mexer...Eram como as bonecas das suas filhas...Tudo plástico...
Maria adorava cuidar das suas crianças, mesmo as mais inquietas, dizia que eram anjos, e que Deus falava através delas. Maria dizia que naquele morro não havia uma criança que não houvesse passado pelas suas mãos de parteira. Conhecia cada uma delas como a palma da sua mão...
No entanto, o que Maria não sabia era que mesmo na palma de nossas mãos há diversos caminhos...
No entanto, o que Maria não sabia era que mesmo na palma de nossas mãos há diversos caminhos...
Certa vez, a noite já ia alta, Maria foi chamada às pressas para fazer um parto. Ia rezando pelo caminho para Nossa Senhora do Bom Parto, quando viu o carro da polícia se aproximar. Cega pelas luzes do farol alto, Maria disse: Vá com Deus. Logo atrás, dobrando a esquina, um grupo de dez meninos ofegantes e encapuzados, sem perceber a presença de Maria, disparam contra a viatura policial, saudando Maria com uma rajada de metralhadora.
Sem ter como atingir os policiais, os meninos voltam seus olhos para o chão e dão com o corpo inocente de Maria. Sem entender o que estava acontecendo, Maria acha que esta rodeada de anjos. Filmando o olhar de cada um deles carregado de lágrimas e desespero, não teve dúvida: eram os seus meninos, que, transfigurados, tomam o corpo de Maria em seus braços e, colocando-o em seus ombros, inconsoláveis, cantam Ave Maria...
Por Mônica Z


1 Comments:
Foi preciso reler Maria para ficar encantada por ela,pelo texto... Alma pura, mãos limpas, coração grande...
leitura envolvente, me surpreendeu. Me emocionei. Ave, Maria!!
Parebéns!!!
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